quarta-feira, 28 de junho de 2017

Epifanias diárias: Legado

   
  Era domingo de tarde. Meus olhos estavam vidrados no chão e eu tremia muito. A dor já me consumia por completo e era inútil ainda tentar reagir. Não era o fim que eu esperava ter, nem o que a vida me daria se estivesse seguindo seu curso natural. Mesmo inconformado eu sabia que não havia mais jeito, era apenas uma questão de tempo.
    Zonzo, confuso, ainda assim eu conseguia me lembrar vagamente do que havia acontecido minutos antes. Foi tudo muito rápido. Eu estava andando tranquilo, observava o mundo ao meu redor e acreditava, no mais íntimo do meu ser, que ele era realmente muito bom.
    Fui até uma casa, que eu já estava acostumado a visitar, e lá me ofereceram uma refeição. Quanta gentileza, pensei. Nós éramos muito diferentes, isso é verdade, tínhamos personalidades, pensamentos e jeitos de ver o mundo totalmente diferentes, então era muito bom saber que era sim possível superar as diferenças e viver em paz. Aceitei a comida de bom grado e foi aí que começou o meu inferno particular.
     Não durei mais do que alguns segundos de pé e caí. O ancião da família e um jovem adolescente vieram correndo, pensei que seria socorrido logo e ficaria tudo bem em breve. Ledo engano. Riam de mim e praguejavam a minha existência.  Eu já não estava em condições de entender e só clamava por misericórdia. Ainda assim, ergueram-me e  levaram para fora da casa.
     Agora estou aqui. No chão. Sozinho, no frio, jogado como um nada há sabe lá Deus quanto tempo. Para mim é uma eternidade. Algumas pessoas pareceram ter passado por mim - não sei se eu estava louco ou será que já havia morrido e nem sabia? O que eu sei é que ninguém me notou, parou ou ajudou.
   O velho amargo e rancoroso e o jovem sórdido de antes ainda vieram me ver. Com raiva, não acreditavam que eu ainda estava vivo. Senti a presença de uma mulher com eles. Com dificuldade consegui ver seu rosto, ela também me olhou. Tão fria – diferente dos outros, não esboçava nenhuma emoção ou reação – que naquele momento eu não sabia se era uma pessoa ou um robô. Mas já não fazia diferença.
   Voltei o olhar para a minha frente e lá eles ficaram vidrados. Ao fundo eu vi o sol se pôr, o céu ficar colorido. Ah, como eu gostava daquela cena! Se me restasse mais algum tempo ainda diria para alguém que o mundo é bom sim, vale apena acreditar e lutar por ele.
  Vi também duas imagens se formarem a uma certa distância. Mais uma mulher, distraída com seu celular, segurava pelas mãos uma menina. Uma garotinha linda, carregava com graça toda a sua inocência, que um dia daria lugar a fortaleza de uma mulher. Ela me fitava assustada, nesse momento já havia parado de andar. Era inútil sua mãe tentar convencê-la a voltar a caminhar.
   Resolvi que era com ela que eu queria consumar meu último sopro de vida. Olhei bem no fundo de seus olhos – sabia que mesmo com a distância isso seria possível, nós estávamos conectados naquele momento.
   Não, eu não vou te contar a minha história até aqui, não tenho tempo para isso. Muito menos irei corromper sua infância com a maldade dos humanos, contando como e o porquê desse meu fim. Sei que agora parece ser muito difícil compreender tudo o que está se passando, mas não tenha pressa, provavelmente nem eu sei direito.
  Você vai crescer algum dia, encontrar muitos como eu. Também terá o desprazer de encarar a maldade de frente e provavelmente, assim como agora, vai continuar assustada e sem entender.
   Infelizmente, nem todas as vidas são valorizadas, muito menos as mortes serão respeitadas. Sou um exemplo disso. Ser quem a gente é, tem um preço muito alto, quando se desvia daquilo que os outros gostam e esperam de todos.
   Minha mãe dizia que eu não deveria ser eu mesmo porque isso ainda me traria sofrimento. Eu fui pelo caminho contrário e não me arrependo. Eu vivi e fui muito feliz, acredite nisso. Senti que tudo valeu a pena e o mundo, ah, esse vale mais ainda. Não ponha a culpa nele.
   Lute pelo o que você acha certo e imponha com orgulho a sua existência, assim, como é. Porque você é perfeita, desse jeito. Eu desejo de todo coração que você seja muito feliz e tenha mais sorte que eu. Menina linda, no meu último sopro de vida, eu ainda ganhei como presente  poder te conhecer. Não te peço muita coisa, um dia eu garanto que você irá entender tudo. Hoje, só tenho um pedido: Carregue em seu peito o meu legado. Nasci gato e morri por ser quem eu fui.

-Amanda Sousa







  Kinesianos, esse é mais um conto do "Epifanias diárias". Isso aconteceu realmente e eu procurei mudar o ponto de vista para que levasse todos a uma reflexão. Existem várias questões a se pensar.
   Comentem aqui embaixo o que vocês acharam do texto de hoje e se vocês estão gostando do "Epifanias diárias". A opinião de vocês é muito importante para mim.
     Beijos e até breve! 


2 comentários:

  1. Que texto maravilhoso. Parabéns. (Mas até a última linha eu achei que era um cachorro.)

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    1. Oi, Zulmira! Tudo bem? Muito obrigada! Que bom que você gostou, fico feliz! Nesse caso era um gato mesmo rsrs, mas também poderia ter sido um cachorro, com certeza!

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